Amor, Devoção, Entrega

Capítulo traduzido do livro "Beyond Within", de Sri Chinmoy


O CAMINHO SOL-ILUMINADO:

AMOR, DEVOÇÃO E ENTREGA


Amor


AMOR HUMANO E DIVINO

Amor divino é um florescer de deleite e altruísmo. Amor humano é uma cabriola de sofrimentos e limitações.

O amor é um pássaro. Quando o engaiolamos, o chamamos de amor humano. Quando permitimos que o amor voe na Consciência tudo-permeante, o chamamos de amor divino.

Amor humano comum, com os seus temores, acusações, desentendimentos, ciúmes e disputas, é como uma chama encobrindo o seu próprio brilho com uma mortalha de fumaça. O mesmo amor humano, erigido do encontro de duas almas, é uma chama pura e radiante. Ao invés de fumaça, ela emite os raios da auto-entrega, sacrifício, abnegação, alegria e verdadeira satisfação.

Amor humano geralmente é a terrível atração de corpos e nervos; amor divino é a sempre-florescente afinidade de alma.

Amor divino é desapego; amor humano é apego. Desapego é verdadeira satisfação; apego é sede insaciável.

Amor ascendente, partindo da alegria da alma, é o sorriso de Deus. Amor descendente, carregando consigo o ímpeto dos sentidos, é o beijo da morte.

Amor humano é usualmente auto-abrangente e auto-persistente. Amor divino é tudo-abrangente e auto-existente.

Amor pode ser tão quebradiço quanto vidro ou tão forte quanto Eternidade, resultando isso dele ter sido erigido no vital ou na Alma.

Nossas emoções mais elevadas, retiradas de seus objetos humanos e oferecidas a Deus, são transformadas pela Sua mágica em néctar divino. Nossas emoções inferiores, não transformadas e transmutadas, são feitas veneno pela nossa própria mão.

Desapontamento habilidosamente persegue o amor vital. Satisfação divinamente consuma o amor psíquico.

Quando nosso vital deseja ver algo, ele precisa enxergar através de auto-amor. Quando o nosso ser psíquico deseja ver algo, ele enxerga através de abnegação.

O amor humano diz ao amor divino: “Não consigo tolerar você.” O amor divino diz ao amor humano: “Bem, isso não é motivo para que eu o deixe.”

Pergunta: Acredito que o amor é sempre o mesmo, seja humano ou divino. É verdade?

Sri Chinmoy: Não! Amor humano e amor divino são duas coisas completamente diferentes. Se eu der a você quinze centavos e você me dá um docinho, isso é chamado de amor humano. No amor divino, você não espera pelos meus quinze centavos. Você alegremente me dá o docinho, por decisão própria. Amor divino é sacrifício, e nesse sacrifício estaremos satisfazendo a Vontade de Deus, consciente ou inconscientemente. No amor humano, demonstramos o amor do comprador e o amor do vendedor, um sinônimo para auto-interesse. Preste atenção, eu não estou dizendo que seres humanos não podem expressar amor divino. Eles podem e às vezes o fazem. No entanto, amor divino consistente é, no presente momento, raro para os seres humanos.


Amor humano começa no falso deleite e termina em sabedoria incerta. Amor divino começa na sabedoria infalível e termina em deleite perpétuo.

Se amar significa possuir alguém ou algo, então não é amor verdadeiro, amor puro. Se amar significa se doar, se tornar um com tudo e com a humanidade, esse é amor verdadeiro. Amor verdadeiro é unicidade completa com o objeto amado e com o Possuidor do amor. Quem é o Possuidor do amor? Deus. Sem amor, não poderíamos nos tornar um com Deus. Amor é o laço interior, a conexão interior, a ligação interior entre o homem e Deus. Devemos abordar Deus sempre através do amor. O primeiro passo é o amor; o segundo passo é a devoção; o terceiro passo é a entrega. Primeiro amemos a Deus; depois, devemos nos devotar a Ele apenas; então, devemos nos entregar aos Seus Pés e encontrar verdadeira satisfação. Amor, devoção e entrega são as chaves secretas para se abrir a Porta de Deus.

O casamento está à mercê do amor. Às vezes o amor se permite ser pego pelo casamento; às vezes não.

Amor é a combinação única da liberdade do Céu com a disciplina da Terra. Na liberdade do Céu está a emancipação da Terra. Na disciplina da Terra está a manifestação do Céu.

Amor é sempre caro, seja ele humano ou divino.

Pergunta: De que forma podemos nos ensinar a amar a humanidade, não apenas como um todo coletivo, mas também especificamente, quando os defeitos e qualidades ruins de uma pessoa são tão claros?
Sri Chinmoy: Ao perceber que os defeitos de uma pessoa ficam claros, imediatamente busque sentir que os seus defeitos e qualidades ruins não a representam completamente. O verdadeiro eu é infinitamente melhor do que o que você vê agora. Por outro lado, se quiser de fato amar a humanidade, então deve amá-la como ela é agora, não esperando que ela alcance um certo nível. Se a humanidade tivesse de se tornar perfeita antes de poder ser aceita por você, ela então não precisaria do seu amor, afeição e cuidado. Mas nesse exato momento, em seu estado imperfeito de consciência, a humanidade certamente necessita do seu amor. Dê à humanidade mesmo o mais insignificante e limitado amor que você tem à disposição, sem reservas. Esta é a oportunidade dourada. Uma vez que você perde essa oportunidade, seu sofrimento futuro será além do seu limiar, pois chegará o dia em que você realizará que a imperfeição da humanidade é a sua própria imperfeição. Você é a criação de Deus; e também o é a humanidade. A humanidade é tão somente a expressão do seu coração universal. Você pode e deve amar a humanidade, não apenas como um todo, mas também individualmente, pois a não ser e até que a humanidade tenha realizado a Meta suprema dela, você verá que a sua própria perfeição divina não será completa.

Ter amor é ter realidade. Amor é realidade expressa e manifesta.

Puro Amor e incalculável desconsolo não vivem e não conseguem viver juntos. Puro Amor é a constante unicidade do corpo com a enxurrada de deleite da alma.

Minha definição do amor é a consciente manifestação da Luz de Deus pelo homem.

Amor é sacrifício. Sacrifício é florescer e perdição: florescer da alma, perdição do ego.

Amor sobreviverá a mente destrutiva. Devoção sobreviverá o coração incerto. Entrega sobreviverá a vida negativa.


AMOR

Senhor, o que é amor animal?
Amor animal é bruto instinto.

Senhor, o que é amor humano?
Amor humano é intenso desapontamento.

Senhor, o que é amor divino?
Amor divino é uma experiência iluminadora.

Senhor, o que é Amor transcendental?
Ah, esse é o Meu Amor.
Amor transcendental
É
A Minha Unicidade universal satisfeita.


Pergunta: Qual a relação entre Amor divino e Compaixão divina?

Sri Chinmoy: Amor divino é para todos. É como o Sol. Para receber o Amor divino uma pessoa precisa tão somente manter aberta a janela de seu coração. Compaixão divina é para uma minoria seleta. A Compaixão de Deus é como um imã que puxa o aspirante em direção à sua meta. É uma força enérgica que conduz, empurra e puxa constantemente o aspirante e não permite que ele falseie no caminho da Auto-realização. O Amor divino conforta e auxilia o aspirante, mas, se o aspirante cair no sono, o Amor divino não o forçará a acordar e não o compelirá a continuar a sua jornada.
A Compaixão divina não é como a compaixão humana. De uma maneira humana podemos ter pena e compaixão por alguém, mas essa compaixão não possui a força para mudar a pessoa e fazer com que ela corra da condição de ignorância para a Luz. No caso da Compaixão de Deus, esta é uma energia que transmuta e transforma o aspirante e o protege de cometer enganos sérios em sua vida espiritual. Não fosse a Compaixão de Deus, discípulo algum meu estaria trilhando o caminho da Auto-realização. É essa Compaixão que os previne de cometerem enganos sérios e caírem do caminho. A Compaixão de Deus vem para os discípulos através da Graça do Mestre. Quando Deus demonstra Compaixão através do Mestre espiritual, Ele espera que o buscador imediatamente fique perto, mais perto, pertíssimo Dele. Através de solitária Compaixão, o discípulo pode se tornar o mais próximo de Deus.
O amor pode ser facilmente mal compreendido. Caso alguém demonstre amor, as pessoas podem pensar que existe algum motivo por trás do amor. Pensam: “Ele me demonstra amor adicional, e portanto espera um favor adicional.” No sentimento de amor entre o Guru e o discípulo, o discípulo pode amar cinqüenta por cento e o Guru pode amar cinqüenta por cento. Mas no caso da Compaixão, o Guru pode estar oferecendo noventa e nove por cento e o discípulo um por cento, e mesmo com esse um por cento o discípulo tenta entrar no campo da ignorância. Quando a Compaixão chega, ela voa como uma flecha e rasga o véu de ignorância.
O amor pode ficar com a ignorância, mas a Compaixão não o fará. A Compaixão deve ser bem-sucedida; caso contrário ela baterá em retirada. Permanecerá por alguns segundos, ou alguns minutos, ou alguns anos; então deve enviar um relatório para a Autoridade altíssima, dizendo se obteve sucesso ou não. Por fim chegará o dia em que a Autoridade altíssima dirá: “É um deserto árido. Retorne.” Assim a Compaixão deve voar de volta para a Autoridade altíssima, o Supremo.
Um verdadeiro Mestre espiritual busca se aproximar dos seus discípulos com o mais puro, alvo-como-a-neve amor. No entanto, freqüentemente ele falha porque seu amor não obtêm resposta. Então muda a sua política e tenta a Compaixão. Novamente, a sua Compaixão é freqüentemente recusada e mal entendida a ponto de sofrer abuso e utilização indevida. As pessoas atribuem intenções ao mais puro Amor e à mais pura Compaixão do Mestre. Quando o Mestre aprecia alguém, aquela pessoa duvida de suas intenções. “Como pode ser o Mestre tão bondoso? Talvez ele queira algo mais de mim, algo importante.”
Com o seu Amor ele falhou e com a sua Compaixão ele falhou. O que resta? Severidade inevitável! Continuará o Amor, continuará a Compaixão, todavia junto dessas duas qualidades divinas o Mestre coloca severa disciplina interior e exterior. Por fim se ele falha em ver disciplina interior e exterior na vida de um aspirante, ele é compelido a dizer ao aspirante que aquele caminho não é para ele. Sua missão pode crescer e se satisfazer apenas na força da verdadeira devoção interior e do abnegado, dedicado serviço do buscador.

Pergunta: Eu não entendo porque o Amor de Deus não entra em mim enquanto mantenho as portas fechadas.

Sri Chinmoy: Se o Amor de Deus entrar em você quando não estiver receptivo, você o considerará um elemento estranho. Você não o apreciará nem se importará com ele. Se alguém traz comida das mais deliciosas e a coloca na sua frente, e você não gosta, então por que deveria trazer para você? Seria um desperdício de tempo. Você descartaria o alimento e sentiria que não possui valor algum.
Uma pessoa não aspirante, uma pessoa desejosa, irá chafurdar nos prazeres da ignorância. É dever de Deus descer e oferecer a Sua infinita Paz, Luz e Bem-Aventurança para essa pessoa? Não! Contudo, se alguém clama e luta para obter uma gota de Paz, Luz e Bem-Aventurança, Deus sentirá que esse alguém merece tais coisas.
Sabemos como clamar a cada momento. Clamamos pelas coisas que nos desertam e desapontam; pelo ego e seus filhos: medo, dúvida, ansiedade e preocupação. Clamamos por fama e renome, por dinheiro, riqueza e posses; mas não clamamos por Deus e por Sua Luz e Deleite. Não clamamos por aquilo que deveríamos clamar; não clamamos pela riqueza a qual todos uma vez tivemos.
Não podemos apenas fazer brincadeiras com a Verdade eterna e com a Realidade altíssima; devemos dar valor a elas. Nesse mundo, se valorizamos algo, trabalhamos arduamente para adquirir tal coisa. Se não trabalhamos duro, não ganhamos nada. Não valorizando a sabedoria, irá ela despertar em nós? Apenas ao ter trabalhado arduamente por ela a sabedoria desperta. Por cada coisa que recebemos, devemos oferecer algo nosso; mas percebemos que o que damos é quase nada em comparação com o que recebemos. Leva um segundo para abrir a porta; e a pessoa que entra, o Eterno Convidado, nos traz Eternidade. Mas se não tivermos o trabalho de abrir a porta, por que então Ele deveria vir? Não daremos valor a Ele; nossa impressão será de que Ele nos traz refugo e coisas as quais não precisamos.
A cada momento da vida espiritual devemos valorizar a Paz, Luz e Bem-Aventurança, e clamar por elas. Somente então poderemos esperar recebê-las de Deus. De outra forma, mesmo que Ele traga Paz, Luz e Bem-Aventurança em medida abundante nós diremos que não precisamos delas. Sentiremos a Graça de Deus operando através de nossa oração e meditação, mas não desejaremos aceitá-las. Não apreciando o que Deus dá, Deus não fica desagradado conosco. Ele simplesmente espera até que estejamos prontos para receber a Sua Riqueza interior.


Quando seguimos o caminho do amor, vemos que Deus é muito querido por nós, não porque Ele é Onipotente, Onipresente ou Onisciente, e sim porque Ele é todo Amor. Uma criança sente que seu pai é muito querido porque sabe que em seu interior ele é todo amor. Não se importa em compreender quão grandioso é o seu pai, seja ele oficial, advogado ou presidente. Apenas por ser todo amor à criança, seu pai é muito querido.
De maneira similar, Deus, nosso Pai eterno, pode ser abordado de forma muito convincente e bem-sucedida através do amor.

É aqui na Terra que deveremos ouvir a mensagem da alma-comovente flauta da Infinidade. Não precisamos ir até o Céu; não precisamos ir até qualquer outro reino de consciência. Aqui mesmo, aqui e agora, podemos ouvir a mensagem de libertação, iluminação e satisfação divina, caso sigamos o ensinamento interior, o qual é amor divino: amor por amor ao amor, amor por amor a Deus.

A Divina Vida não é um chamado longínquo aqui na Terra. A satisfação da Divindade aqui na Terra não poderá nunca permanecer um chamado longínquo se soubermos o segredo dos segredos. E esse segredo é crescer no amor divino, onde o amante e o Amado se tornam um, a criação e o Criador se tornam um, o finito e o Infinito se tornam um.


Devoção

DEVOÇÃO A DEUS

Devoção é a completa submissão da vontade individual à divina Vontade. Devoção é adoração. Adoração é o espontâneo deleite que aflora do coração. Quem pode ser objeto de nossa adoração? Deus. Como podemos adorá-Lo? Através de nossa auto-entrega.
O homem ama. Em retorno ele espera amor. Um devoto ama. Mas ele ama aos seres humanos por amor ao seu doce Senhor que em tudo reside. Seu amor vive na humildade, alegria espontânea e serviço abnegado.
Devoção é o aspecto feminino do amor. É doce, energizante e completo.
O devoto vê um círculo o qual é Deus. Entra nele através do choro de sua alma. Então, silenciosamente se coloca no centro do círculo e se edifica uma árvore de êxtase.
Uma criança não se importa com o que sua mãe é. Quer apenas a constante presença de amor de sua mãe diante de si. Semelhante é o sentimento do devoto para com o seu Senhor. Muitos se adiantam a ajudá-lo na jornada de sua vida. No entanto, ele não dá atenção ao auxílio deles. A Graça de Deus é sua única ajuda e refúgio. As torturas do inferno são todas muito fracas para atormentá-lo enquanto lá ele está com o seu Senhor. Sua vida no inferno é uma vida de perfeita bem-aventurança. Seus sofrimentos e atribulações não conhecerão limites se lá estiver sem seu Senhor ao lado.
Devoção é uma emoção alma-comovente. Permeia de forma dinâmica toda a consciência do devoto. Devoção é ação. Essa ação é sempre inspirada pelo ser interior do devoto.
Devoção traz a renúncia. Verdadeira renúncia nunca é uma vida de isolamento. Renúncia é um desgostar derradeiro da vida animal da carne. É também uma total ausência do ego. Uma vida de verdadeira renúncia é uma vida que vive no mundo e no entanto não deriva seus valores dele.
Devoção é dedicação. Dedicação dá ao devoto sua auto-satisfação. Auto-satisfação é a infinidade de Deus.
Diferente dos outros, o devoto tem o sentimento sincero de que nada mais está em posse dele exceto seu desejo por Deus. Seu desejo é a sua jóia. A Graça de Deus é Sua jóia. Oferecendo a sua jóia a Deus, o Devoto prende a Deus. Dando a Sua jóia ao Seu devoto, Deus liberta e satisfaz o seu devoto.
Devoção é a nossa doçura interior. Devoção é a nossa intensidade divina. Devoção é o nosso dinamismo supremo. Deus ama a nossa doçura branca-como-a-neve. Deus aprecia a nossa intensidade divina. Deus admira o nosso dinamismo supremo.
Um coração de devoção é mais puro do que puríssima chama. Um coração de devoção é mais veloz do que velocíssimo cervo. Um coração de devoção é mais sábio do que o mais sábio erudito.
A permanência plena de alma da pureza tem morada na devoção. A certeza verdadeira da velocidade tem morada na devoção. A frutífera iluminação da sabedoria tem morada na devoção.


Pergunta: O que é devoção? É apenas um desejo de fazer todo o possível pelo seu Guru?

Sri Chinmoy: Para um discípulo, a devoção significa a sua unicidade purificada, simplificada, intensificada, devotada, consagrada, consciente e constante com o seu Guru. O discípulo deve sentir que o Guru é o ímã espiritual que o puxa constantemente em direção à infinita Luz do Supremo. Devoção não significa somente um desejo de fazer todo o possível pelo Guru. Devoção é algo infinitamente mais profundo que desejo. Devoção é a percepção consciente da Luz em operação. Nessa Luz o aspirante descobrirá que quando faz alguma coisa pelo Guru ou quando o Guru pede que faça algo por ele, o Guru já deu a ele capacidade mais do que a necessária.
As manifestações da devoção são simplicidade, sinceridade, espontaneidade, beleza e pureza. As manifestações da devoção são o sentimento intenso e devotado pelo objeto da adoração e a unicidade consagrada com o Piloto Interior.


Pergunta: Qual é a diferença entre devoção e entrega?

Sri Chinmoy: Na devoção de um buscador, existe um tipo de dar e receber. O buscador diz: “Eu devoto a minha vida completa a você, mas você deve me dar realização interior, iluminação ou algo mais.” Isso é auto-oferenda condicional.
Depois da devoção vem o estágio o qual chamamos de amor abnegado. Amor abnegado é quando amamos e não nos importamos com o receber em troca; nos tornamos um com o objeto de nossa adoração. Nesse amor existe um sentimento sutil de que o Amado irá nos dar o melhor fruto porque não O incomodaremos com tolos problemas emocionais ou desejos, com “Dê-me isso” ou “Dê-me aquilo.” No amor abnegado, a demanda ou desejo já é passada. O buscador sabe que o Supremo irá dar a ele algo bom, algo que vale a pena ter; ele não precisa pedir nada. Isso é amor abnegado.
Entrega é o estágio final. Na entrega sentimos a absoluta aceitação do Divino e do Supremo. Se entregarmos completamente a nossa vida e dissermos: “Deus, eu coloco a minha vida inteiramente aos Seus Pés”, toda a nossa existência entra em Deus. Deus é Onisciente, Deus é Onipotente, Deus é Infinito, e portanto a nossa entrega imediatamente se torna o Onisciente, o Onipotente e o Infinito. A entrega é a estrada mais rápida que leva à unicidade com Deus. Se tão somente nos lançarmos no oceano de Paz e Bem-Aventurança, seremos um com Deus.
Na entrega dizemos: “Estou pronto, não importando o que Deus quiser me dar, não importando o que Ele quiser fazer com a minha vida. Eu me entrego completamente, com o meu próprio alento, com a minha própria existência. Mesmo se Deus não quiser a minha ajuda, a minha vida ou a minha existência, eu ficarei feliz.” Nesse momento o discípulo deseja apenas a Vontade de Deus, o Supremo. Isso é verdadeira entrega.
É bastante fácil dizer: “Seja feita a Vossa Vontade.” Mas quando dizemos isso, devemos nos identificar com a Vontade de Deus. Como? Através da entrega. Ao fazer uma entrega verdadeira, nos tornamos um com a Vontade de Deus. Na vida espiritual, não pode haver melhor conquista nem arma mais poderosa do que a entrega.


DEVOÇÃO

Quando amas
Com devoção,
És divinamente grandioso.

Quando entregas
Com devoção,
És divinamente bondoso.

Quando oras
Com devoção,
És supremamente grandioso.
Quando meditas
Com devoção,
És supremamente bondoso.

Devoção, devoção, devoção.


Entrega

A FORÇA DA ENTREGA

O mundo de hoje deseja individualidade. Demanda liberdade. Mas verdadeiras individualidade e liberdade podem viver apenas no Divino.
Individualidade humana brada no escuro. Liberdade terrena clama pelos desertos da vida. Mas entrega absoluta universalmente canta a canção de individualidade e liberdade divinas no Colo do Supremo. Entrega é o incansável alento da alma no Coração de Deus.
Na entrega descobrimos o poder espiritual através do qual nos tornamos não apenas os videntes mas também os possuidores da verdade. Se pudermos entregar em absoluto silêncio, nós mesmos nos tornaremos a realidade do real, a vida do vivente, o centro de verdadeiro amor, paz e bem-aventurança.
Uma criança amável atrai a nossa atenção. A amamos porque ela nos conquista o coração. Mas pedimos dela algo em troca? Não! A amamos porque ela é objeto de amor; ela é amável. Podemos e devemos amar a Deus da mesma maneira, pois Ele é o Ser mais amável. Amor espontâneo pelo Divino é entrega, e essa entrega é o melhor presente na vida. Pois, quando nos entregamos, num instante o Divino nos dá infinitamente mais do que seríamos algum dia capazes de sonhar em pedir.
Entrega é um milagre espiritual. Ela nos ensina a ver Deus de os olhos fechados, como falar com Ele de boca fechada. O medo adentra o nosso ser apenas quando apartamos a nossa entrega do Absoluto.
Entrega é um desdobramento. É o desdobramento de nosso corpo, mente e coração no sol da Plenitude divina que há dentro de nós. Entrega a esse sol interior é o maior triunfo na vida. O cão das falhas não pode nos tocar quando nesse sol estamos. O príncipe do mal falha em nos tocar quando realizamos e estabelecemos a nossa unicidade com aquele sol eternamente vida-doador.
Entrega sabe que há uma Mão que guia e sente que essa Mão está sempre presente. Essa Mão pode surrar ou abençoar o aspirante, mas o aspirante entregue descobre a verdade de que tudo o que parte do Supremo sempre frutifica em bondade e luz.
Na vida, tudo pode conosco falhar, mas não a entrega. A entrega tem um acesso livre à Onipotência de Deus. Portanto, o caminho da entrega é a perfeita perfeição da proteção.
Entrega tem forças para encontrar o Absoluto e permanecer e brincar com Ele eternamente. Deus pode às vezes brincar de esconde-esconde com as outras qualidades divinas do homem, mas nunca com a entrega genuína de Seu devoto.
Entrega interior transforma a vida em um infinito progresso. Ela dá à vida a sublime afirmação de que essa vive em Deus e em Deus apenas.
Entrega é a alma do corpo do devoto. Entrega é o preenchimento sem igual da vida do devoto. Entrega o leva à Fonte. Quando está na fonte, ele se torna o Altíssimo e revela o Mais Profundo.
Individualidade odeia a entrega. Entrega ilumina a individualidade. Individualidade é vontade-própria. Vontade-própria é amor-próprio. Entrega é Vontade-Deus. Vontade-Deus é Amor-Deus.
A Graça tudo-preenchedora de Deus descende apenas quando a entrega incondicional do homem ascende.
Nossa entrega é algo muito precioso. Apenas Deus a merece. Podemos oferecer a nossa entrega a outro indivíduo, mas apenas com o intuito de realizar Deus. Se aquele indivíduo já alcançou a sua Meta, ele pode nos auxiliar em nossa jornada espiritual. No entanto, se nos oferecermos a alguém apenas para satisfazê-lo, estaremos cometendo um engano do tamanho dos Himalaias. O que deveríamos fazer é nos oferecermos sem reservas para o Senhor que nele reside.
Cada ação nossa deveria ser dirigida para agradar a Deus e não para obter aclamação. Nossas ações são muito secretas e sagradas para serem dispostas diante de outros. Elas são para o nosso próprio progresso, conquista e realização.
Não há limites para a nossa entrega. Quanto mais entregamos, mais temos de entregar. Deus nos deu capacidade. Ele demanda de nós manifestação, de acordo com a nossa capacidade. Manifestação além da nossa capacidade Deus nunca demandou e nunca o fará.
Na completa e absoluta entrega do homem está a sua realização: sua realização do Eu, sua realização de Deus o Infinito.


Entrega é a mais pura devoção que enxerga através do olho de intuição. Entrega é liberdade, perpétua liberdade, pois ela sempre permanece com Deus, em Deus e por Deus.
O olho de entrega não enxerga o rosto das forças hostis. Ele sempre vê a Face da Compaixão, Proteção e Divindade de Deus. A vida de entrega soa divinamente verdade. Está sempre cheia de inspiração duradoura, aspiração reveladora e realização transcendente.
Entrega é a sabedoria que enxerga e se torna a Verdade. Entrega não deseja nada além de Deus. Entrega recebe a própria essência de Deus. Nada é tão prático quanto a entrega, pois esta sabe o segredo supremo de que se oferecer integralmente a Deus é possuir absolutamente a Deus.

Entrega adere a Deus com toda a força da alma.
Entrega adere a Deus com todo o amor do coração.
Entrega adere a Deus com toda a vontade da mente.
Entrega adere a Deus com toda a energia dinâmica do vital.
Entrega adere a Deus com todas as emoções alvas-como-a-neve do corpo.


Pergunta: Por que acho tão difícil entregar-me à minha vida interior?

Sri Chinmoy: Você se entrega constantemente a coisas terrenas – barulho, semáforos, governo. Sente que ficará completamente perdido se não se entregar a essas coisas, ao passo que se entregando poderá pelo menos continuar a sua existência na Terra. Sente que precisa ser esperto para permanecer na Terra, que precisa haver alguma transigência entre os seus desejos e o mundo que você de fato vê ao seu redor. Assim, o que quer que seja que a Terra ofereça a você, mesmo se estiver na forma de uma tortura, você sente que deve aceitar.
Caso queira levar uma vida de aspiração, então deve ter o mesmo tipo de sentimento em relação a coisas espirituais. Deve sentir que se não orar, se não meditar, estará completamente perdido; se não clamar, se não se render à divindade mais elevada, então toda a sua existência não terá valor algum. Você deve sentir que sem a condução interior ficaria completamente perdido e desamparado. E essa condução interior vem apenas quando você realmente quer entregar a sua ignorância à Luz que há dentro de você.
Existem milhões e bilhões de pessoas na Terra que não estão orando e meditando, mas que ainda existem, apesar de que talvez estejam vivendo uma vida animal. Mas se sentir que não será suficiente apenas manter a sua existência na Terra, se sentir que a sua existência deve possuir algum significado, algum propósito, algum preenchimento, você deve buscar a vida interior, a vida espiritual. Vendo que apenas a vida interior pode oferecer Paz, Luz e Bem-Aventurança, naturalmente se entregará à vida interior.
Assim as pessoas aspirantes tentarão ir além das circunstâncias e eventos e se entregar à sua divindade interior. Esta não é a entrega de um escravo ao senhor; não é uma entrega desamparada. Aqui se entregam as imperfeições, limitações, amarras e ignorância ao próprio Eu mais elevado, o qual está inundado de Paz, Luz e Bem-Aventurança.

Pergunta: Seria a entrega algo passivo?

Sri Chinmoy: Há uma grande diferença entre a entrega por preguiça ou total desamparo e a entrega dinâmica, a qual está carregada de aspiração. Se, devido à preguiça ou ao desamparo dizemos: “Eu me entreguei. Agora não quero fazer nada”, isso não será suficiente. Nossa entrega deve ser dinâmica, constantemente aspirando para crescer no ou se fundir com o Infinito. Nossa entrega deve ser feita espontânea e conscientemente. Quando nos entregamos espontânea e conscientemente à Verdade, Paz e Bem-Aventurança infinitas, nos tornamos um perfeito canal para a manifestação dessas qualidades na Terra. No ocidente, a entrega é terrivelmente mal-entendida. Aqui a entrega é vista como submissão a algo ou alguém. É vista como uma perda da individualidade, uma extinção da individualidade. Então, onde fica a questão do canal perfeito? Essa visão da entrega espiritual é um engano. Se quisermos ser um com o infinito Derradeiro, com o Ilimitado, devemos entrar nele. Quando adentramos no Derradeiro, não perdemos a nossa assim chamada pequena individualidade. Pelo contrário, nos tornamos o próprio Infinito. Pela força de nossa completa unicidade, o Infinito e nós seremos indivisíveis.


Pergunta: Você poderia explicar a diferença entre dependência e entrega?

Sri Chinmoy: Na verdadeira entrega sentimos que a nossa parcela mais escura está se entregando à nossa parcela mais luminosa, que a nossa parcela obscura está se entregando à nossa parcela completamente iluminada. Digamos que meus pés estejam na escuridão e que a minha cabeça esteja na luz. Meus pés se entregam à minha cabeça, sabendo perfeitamente que ambos pé e cabeça fazem parte do mesmo corpo. Essa é a entrega da unicidade. Alguém se entrega sabendo que a parte mais iluminada é igualmente sua.
Devemos saber qual o tipo de dependência que um buscador tem. Algumas pessoas são espertas; dependem do Mestre espiritual ou de autoridade maior outra, mas com uma intenção por trás da dependência. Porém, existe outro tipo de dependência: a dependência de uma criança. Uma criança inocente sente que seu pai e sua mãe farão tudo por ela. Ela sente que está indefesa. Ela tem a sincera convicção de que não pode dar um passo ou fazer qualquer coisa sem a ajuda de sua mãe, e portanto pede ajuda a sua mãe.
Para ter verdadeira dependência, a pessoa deve sentir que ficará desamparada sem a Graça divina do Supremo. Esse tipo de dependência nos auxilia imensamente. Alguns de meus discípulos pensam que se me deixarem mesmo por um dia eles ficarão completamente perdidos, como crianças em um deserto. Eles são dependentes, mas não como pedintes. Dependem da luz maior. Quando dependem de mim, eles sentem que estão dependendo de algo mais elevado, algo que pertence a eles.
Se tivermos um acesso livre a um plano mais elevado e sentirmos que esse plano também é nosso, naturalmente poderemos depender desse plano mais elevado. Nesse sentido, a dependência é muito boa. De outra forma, as pessoas estarão contando uma mentira ao dizer que dependem da Vontade de Deus ou que dependem da vontade do Mestre. Ao fazer isso estarão tentando atrair a atenção de outros discípulos. Eles dizem: “Oh, o Guru nos pediu que fizéssemos isso? Então o faremos.” Mas interiormente eles se recusaram a fazer tal coisa duzentas vezes. Exteriormente eles podem fazê-lo, mas com extrema indisposição interior. Dessarte, esse tipo de dependência não é nada boa.
Caso a sua dependência seja absolutamente sincera, caso sinta que sem o auxílio do Supremo você não pode respirar, isso é entrega. Quando respira, você depende de seu alento-vida. Se o seu alento-vida se esvai, você não existe. De maneira similar, se pode sentir que depende totalmente da Vontade do Supremo, a qual é muito mais importante do que o seu alento-vida, essa dependência é entrega verdadeira.


APENAS O SEU ESTANDARTE-VITÓRIA HASTEAREI

Entregarei o meu “eu”-ser aos Seus Pés.
Aceitarei o Seu “Eu”-ser em meu sonho.
Verei as ondas de Paz em Seus Olhos.
Enlaçarei a Ti com o meu doce despertar.
Ó Beleza Suprema, em minha vida e morte
Somente o Seu Estandarte-Vitória hastearei.


A NECESSIDADE DE ENTREGA

Chega um momento em nossa vida em que realizamos que não estamos satisfeitos com o que somos ou o que temos, seja riqueza material ou riqueza interior. Estaremos então prontos para a entrega. Como podemos nos entregar? É bastante fácil. Quando sentirmos a necessidade de entrega a maneira automaticamente aparecerá. Se estivermos desesperadamente necessitando de entrega, se sentirmos o anseio interior da alma, se todo o nosso ser quiser se entregar à Vontade de Deus, automaticamente das alturas e do interior receberemos capacidade, certeza, luz e compaixão mais do que o necessário. Quando nos entregamos esvaziamos toda a nossa impureza em Deus e Ele a substitui com a Sua Pureza e Sua Divindade.
Entrega à Vontade de Deus depende inteiramente de nossa necessidade. Ela será possível para nós apenas se sentirmos que sem a entrega de nossa existência terrena nós não ficaremos satisfeitos ou preenchidos.
Deus não pode nunca nos obrigar à entrega; somos nós quem devemos sentir a necessidade de amar a Deus e nos devotarmos a Deus a cada segundo. Começamos com amor. Mesmo na vida comum, quando amamos alguém nós devotamos alegremente a nossa vida e o nosso ser por completo àquela pessoa. Também na vida espiritual, se realmente amamos a Deus, o qual é todo Luz e infinita Sabedoria, devemos nos devotar a Ele. Dessarte, amor e devoção devem caminhar juntos.
Quando nos devotamos a Deus podemos ter alguma ambição ou inclinação em conseguir uma maneira pessoal de obter a Verdade. Alguns dizem ao Supremo: “Estou fazendo isso por Você; eu devotei toda a minha vida a Você e espero que me dê algo em troca.” Isso é bastante natural, mas, do mais elevado ponto de vista espiritual, está errado. Outros dirão: “Oferecerei a Deus o que eu tenho e o que eu sou. Se Deus não me quiser ou não gostar de mim, Ele pode não dar a mim coisa alguma. Isso quem decide é Ele. O meu dever é serví-Lo com o que eu tenho e o que eu sou; é o Dever Dele me dar ou não me dar, me utilizar ou não me utilizar.” Um verdadeiro buscador tentará agradar a Deus à Maneira própria de Deus.
Entrega espiritual é a nossa unicidade absoluta com a nossa parcela mais elevada, com o Supremo. Não nos entregamos a outra pessoa que não seja nós mesmos. Não! Quando o nosso Mestre fica diante de nós e faz uma reverência, a quem ele se curva? Ele se curva ao Supremo em nós. E quando de mãos postas nos curvamos ao Mestre, estamos reverenciando o Supremo nele. O Altíssimo nele e o Altíssimo em nós não podem nunca ser coisas diferentes; eles são o mesmo.
Nosso caminho de amor, devoção e entrega levará à mesma meta que o caminho do jnana, sabedoria. No entanto, sentimos que o caminho do amor é mais fácil. A própria palavra ‘Deus’ ganha o nosso coração, não porque Deus possui infinito Poder, e sim apenas porque Deus é todo Amor. Deus é o mais poderoso na Terra. Porém, a nossa natureza humana é tão débil que se nos concentrarmos em Deus como infinito Poder não seremos capazes de alcançá-Lo. Se dissermos ‘Deus’ e imediatamente sentirmos que Ele é todo Amor, infinito Amor, estaremos certos; o Seu Amor é o Seu Poder. Nos aproximarmos de Deus através do Amor é a maneira mais fácil e mais rápida.


Pergunta: Como podemos nos entregar ao Supremo?

Sri Chinmoy: Digamos que quando criança, com cerca de três anos, você sempre ouvia à sua mãe. Talvez você não a ouça mais agora; mas quando era criança, haviam muitas coisas as quais ela pediu que você fizesse ou não fizesse. E você fez algo de errado ao escutá-la? Não. A sua mãe disse a você que não tocasse no fogo e você acreditou nela. Caso tivesse tocado no fogo, teria queimado a sua mão. Mas justamente por ter sido obediente e se entregado à vontade da sua mãe você escapou de se queimar.
Você deve ter esse mesmo tipo de fé na vida espiritual. Precisa sentir que o seu Mestre espiritual, como a sua mãe, não o desapontará e nem o enganará. Você é agora uma criança, um bebê na vida espiritual. O seu Mestre espiritual não o irá enganar; o seu Piloto Interior não o irá enganar. Não! A entrega vem apenas quando se tem fé em alguém mais, quando se tem mais fé naquela pessoa do que em si mesmo.
Você também pode se tornar uma criança desaprendendo. A ignorância e a escuridão ensinaram a você muitas coisas as quais deve agora desaprender. Uma criança não sabe praticamente nada; sabe apenas como amar a sua mãe e o seu pai, e isso é mais do que tudo para uma criança. Todos devem desaprender coisas que a mente ensina. Assim, quando oramos, quando meditamos, a primeira coisa que deveríamos fazer é nos livrarmos de dúvidas, desconfianças e outras qualidades negativas.
Se agradar aos seus pais quando eles quiserem que você faça algo, no momento que você pedir dinheiro ou outra ajuda material eles imediatamente concederão tal auxílio. Eles o farão porque têm muito mais dinheiro do que você tem, e muito mais capacidade em vários campos. Mas se você não os agradar, eles não darão nada.
Quando uma criança vem correndo para o seu pai, segurando um níquel que acabou de encontrar na rua ela diz: “Veja pai, encontrei um níquel!” O pai fica tão feliz por seu filho ter vindo até ele. A única posse da criança, a sua única riqueza, é um níquel. Com esse níquel ela poderia ter ido a uma loja e comprado doces ou feito alguma outra coisa, mas não o fez. Ao invés, ela voltou para o seu pai em casa com o seu pequeno níquel. O pai naturalmente se agrada e dá à criança um quarto de dólar ou um dólar em troca pelo níquel.
Também na vida espiritual, durante alguns poucos minutos de meditação ou oração cedo pela manhã, você oferece um pouco de aspiração, que é o seu níquel. Imediatamente o Mestre espiritual invoca tantas coisas para você: Paz, Luz, Bem-Aventurança, Alegria e Deleite. Mas você deve oferecer uma gota de aspiração, durante cinco minutos ou meia hora de meditação pela manhã.
Deus nunca ficará devendo. Você possui uma pequena capacidade; medita em Deus por alguns minutos cada dia. No momento que Ele vê que você o faz regularmente, que aceitou a vida espiritual honesta e sinceramente, de todo o coração, Deus faz chover a Sua ilimitada Compaixão, na forma de Luz, Deleite e Graça.
Portanto, dê a Deus o que você tem: sua fé pueril e seu clamor interior. Se puder dar a Ele o seu clamor interior e ter fé implícita Nele, a entrega automaticamente se distinguirá na sua vida de aspiração.


ALEGRIA NA ENTREGA

Quando um aspirante está completamente entregue à Vontade de Deus, ele possui alegria abundante. Sentirá toda a alegria em seu coração e viverá em constante alegria. Não será capaz de associar motivo ou significado a ela. Cedo pela manhã, quando ele se levanta, terá uma sensação ou sentimento muito doce. Ao tocar uma parede, sentirá alegria; ao tocar um espelho, também sentirá alegria. Sua própria alegria entra em tudo o que ele vê. Quando um táxi passa, ele vê intensa alegria no taxista, e mesmo no próprio carro. A sua alegria interior irá entrar em cada pessoa, cada objeto; e tudo permeará.
Quando há entrega completa, não pode existir fracasso. Entrega é a mais grandiosa alegria, a mais profunda alegria, a mais sublime alegria, mesmo no caso do assim chamado fracasso. O sucesso também traz a mesma alegria. Quando somos bem-sucedidos em alguma coisa, imediatamente derivamos alegria do nosso sucesso. De maneira similar, se nossas vidas interior e exterior estiverem supercarregadas com luz entregue, a cada momento derivaremos pura e intocada alegria da Fonte altíssima. Se tivermos esse tipo de alegria espontânea, poderemos sentir que ela vem apenas de nossa total entrega ao Piloto Interior, Mestre, Guru, Deus.


Pergunta: Eu não sei o que acontecerá comigo no futuro, e me preocupo muito com o meu destino. Isso está certo?
Sri Chinmoy: Não, não deveríamos nos preocupar. Deveríamos ter fé implícita em Deus, em nosso Piloto Interior ou em nosso Mestre espiritual. Precisamos sentir que Deus não apenas sabe o que é melhor para nós, mas que também fará o que é melhor para nós. Nos preocupamos porque não sabemos o que acontecerá conosco amanhã, ou mesmo no minuto seguinte. Sentimos que, se não fizermos algo por nós mesmos, então quem o fará? No entanto, se pudermos sentir que há alguém que pensa em nós infinitamente mais do que pensamos em nós mesmos, e, se pudermos oferecer conscientemente nossa responsabilidade a Ele, dizendo: “Seja Você o responsável. Pai Eterno, Mãe Eterna, seja Você responsável pelo que faço e digo e me torno,” o nosso passado, presente e futuro se tornam problemas Dele. Enquanto tentarmos ser responsáveis por nossas vidas estaremos desolados. Não seremos capazes de utilizar adequadamente nem mesmo dois minutos das vinte e quatro horas que temos disponíveis. Quando pudermos sentir que somos os instrumentos conscientes de Deus e que Ele é o Agente, não nos preocuparemos com nosso destino. Isso pois saberemos e sentiremos que ele está nas todo-amorosas Mãos de Deus, que farão tudo em nós, através de nós e por nós.
Ofereçamos conscientemente a nossa própria existência – o que temos e o que somos – a Deus. O que temos é a aspiração por nos tornarmos a própria imagem de Deus, por adentrar na infinita Paz, Luz e Bem-Aventurança. E o que somos agora é somente ignorância, mar-ignorância. Se pudermos oferecer o nosso clamor-aspiração e o nosso mar-ignorância a Deus, nosso problema estará resolvido. Não devemos e não precisamos nunca nos preocupar com o destino. Pela força de nossa entrega, nos tornamos inseparavelmente unos com a Vontade Cósmica de Deus.
Entrega é proteção; entrega é iluminação; entrega é perfeição. Iniciamos a nossa jornada no princípio de nossas vidas. Entregamos nossa existência aos pais e recebemos em retorno proteção. Nos entregamos à vontade deles, aos seus conselhos e sugestões, e ficamos protegidos. Nós sentimos ilimitada alegria em nossas vidas quando somos crianças. Por quê? Porque entregamos a nossa vontade pessoal, o nosso pensamento interior, aos nossos pais, recebendo imediatamente alegria e também proteção. Na proteção reside a alegria, e na alegria reside a proteção.
Assim, quando trilhamos o caminho da espiritualidade, a cada momento buscamos ouvir os ditames de nosso ser interior. Quanto mais o ouvimos, mais grandiosa é nossa alegria e maior o nosso preenchimento. E, quando o nosso estada chega ao fim, quando precisamos entrar em outro mundo para um breve descanso, também nos entregamos. No final de nossa jornada entregamos o nosso próprio alento ao Supremo. Novamente obtemos alegria, perfeita alegria, alegria intocada.

Pergunta: O que está envolvido na entrega do vital e do corpo físico? Havendo nos entregado com o coração e a alma, como podemos melhor ajudar as outras partes, obstinadas, de nosso ser a se entregarem?

Sri Chinmoy: Após a entrega do coração e da alma, se quiser que as outras partes obstinadas, o vital e o corpo, se entreguem a Deus, você pode fazer duas coisas. A primeira coisa é fazer com que sintam que são tão importantes quanto o coração e a alma para a satisfação de sua missão na Terra. A segunda coisa é ameaçá-los, dizendo que você permanecerá na região da alma e não dará importância à limitada satisfação, conquista, e felicidade deles. A sua inspiração e aspiração, e a ameaça de ir embora irão compelí-los a tomar uma decisão. Muito freqüentemente eles dão atenção à satisfação, conquista e alegria ilimitada, e se identificam conscientemente e sinceramente com o coração e com a alma. Tornam-se então parte e parcela da entrega integral.


Quando o aspirante deixa à amargas mínguas a mente questionadora e alimenta suntuosamente a sua entrega, Deus diz: “É chegada a hora. Eu venho.”

A MENSAGEM DA ENTREGA

Hoje Você me concedeu a mensagem da entrega.
Eu ofereci a Você o meu próprio coração-flor.
Na noite escura com lágrimas,
Na incógnita cela-prisão da ilusão,
Na morada do finito,
Não mais farei lar.
Sei que Você é minha.
Isto eu soube, Mãe,
Ó Rainha do Eterno.

Pergunta: O nosso caminho é o caminho do amor, devoção e entrega. Pode haver unicidade entre cada uma dessas qualidades ou a verdadeira unicidade vem apenas com a entrega?

Sri Chinmoy: É algo assim: fique de frente para uma árvore, de preferência durante a noite, e observe a folhagem dela – seus ramos e folhas. Tente gradualmente sentir que você é a árvore – você é ramos, folhas e raiz. Essa é a árvore exterior.
Imagine por alguns minutos que você possui uma árvore dentro de si. Essa árvore possui apenas três ramos. Os nomes desses ramos são amor, devoção e entrega. Sentará-se em um ramo chamado amor, e lá você e Deus são absolutamente um.
Então se sentará no ramo chamado devoção. Enquanto lá sentado, deve sentir que não apenas Deus e você são um, mas que também há um tremendo, íntimo cuidado e o sentimento de inseparável unicidade entre você e Deus. Deus devota Sua infinita Luz à sua satisfação e você devota sua capacidade última, a capacidade que tiver, para a satisfação da Vontade de Deus. No ramo chamado devoção a sua unicidade é aprofundada e intensificada.
Em seguida vem o ramo da entrega. Sentado no ramo da entrega, sinta que a unicidade presente no ramo do amor e a intimidade presente no ramo da devoção alcançaram você apenas através força de sua entrega implícita à Vontade de Deus. Você teve a aspiração para se tornar um com Deus, mas não foi a sua aspiração que o fez um com Ele. Dentro da sua aspiração havia luz de entrega. “Deus, eu aspiro, mas à Você me entreguei e fica a Seu critério satisfazer a minha aspiração ou me deixar onde estou agora.” Essa era a sua oração.
Quando se senta no ramo da entrega, deve sentir que a unicidade do ramo do amor e a unicidade íntima do ramo da devoção vieram por causa da implícita e incondicional entrega que você tinha dentro de sua fulgurante e ascendente aspiração.


AMOR, DEVOÇÃO E ENTREGA

Amor é ação. Devoção é pratica. Entrega é experiência.
Amor é realização. Devoção é revelação. Entrega é manifestação.
Amor é o significado da vida. Devoção é o segredo da vida. Entrega é a Meta da vida.
Em meu amor, vejo Deus a Mãe. Em minha devoção, vejo Deus o Pai. Em minha entrega, vejo Deus a Mãe e Deus o Pai juntos num só corpo.
Amor sem devoção é um absurdo. Devoção sem entrega é futilidade.
Amor com devoção foi o início da minha jornada. Devoção com entrega é a conclusão de minha jornada.
Eu amo o Supremo pois Dele eu vim. Me devoto ao Supremo pois a Ele desejo retornar. Me entrego ao Supremo pois Ele vive em mim e eu Nele.

Amor é doce, devoção é mais doce, entrega é dulcíssima.
Amor é doce. Senti essa verdade no espontâneo amor de minha Mãe por mim.
Devoção é mais doce. Descobri essa verdade na pura devoção de minha Mãe pela perfeição da minha vida.
Entrega é dulcíssima. Realizei essa verdade na entrega constante de minha Mãe pelo preenchimento da minha alegria.
No entanto, amor é poderoso, devoção é mais poderosa, entrega é poderosíssima.
Amor é poderoso. Sinto essa verdade quando vejo a Face de meu Pai.
Devoção é mais poderosa. Descubro essa verdade quando sento aos Pés de meu Pai.
Entrega é poderosíssima. Realizo essa verdade quando vivo no alento da Vontade de meu Pai.
Devoção é intensidade no amor e entrega é a satisfação do amor. Por que amamos? Amamos porque a todo momento somos cutucados pelo anseio de realizar o mais elevado, de sentir o mais profundo, de ser conscientemente um com a Verdade, Luz, Paz e Bem-Aventurança universais e de ser completamente preenchido.

Entrega à Vontade de Deus é a revelação altíssima de nosso poder velado.