Estórias do Livro "O Mestre e o Discípulo'

Traduções de estórias selecionadas do livro "The Master and the Disciple", de Sri Chinmoy


ESTA PLANTA É O HOMEM, ESTA PLANTA É DEUS


Era uma vez um buscador. Durante muitos anos, ele procurou por um Mestre, um Guru. Infelizmente, nunca encontrou um. Esteve em muitos grupos, mas os professores que conheceu não eram do seu gosto. E ele procurava e procurava por um Mestre espiritual. Um dia, enquanto andava por uma rua, viu um Mestre espiritual com alguns discípulos. Estavam sentados na relva, num lindo gramado, e alguns discípulos molhavam a grama.

O buscador aproximou-se do Mestre e falou, “Mestre, todos esses seus discípulos escutam o senhor, não importa o que diga. Eles acreditam no senhor e estão certos quando o ouvem. Mas, eu gostaria de dizer que tenho algo para contar-lhe, mesmo que o senhor possa discordar.”

O Mestre disse, “A verdade certamente não é meu monopólio. Se você descobriu alguma verdade, naturalmente aceitarei a sua verdade de todo coração. Agora, por favor, diga-me, que verdade você descobriu?”

O buscador falou, “Minha descoberta é esta: uma pessoa do mundo não pode realizar Deus tão facilmente. Sou uma pessoa do mundo, e sei que até mesmo encontrar um Mestre é impossível. Se não encontro um professor espiritual, porque nenhum me satisfaz, então como será possível que eu realize Deus, algo infinitamente mais difícil? Encontrar um Mestre já é tão difícil para mim; alcançar a realização nesta vida é simplesmente impossível. O senhor concorda comigo?”

O Mestre respondeu, “Infelizmente, não concordo com você. Outros podem pensar que o que diz está certo, mas eu gostaria de dizer que não é tão difícil encontrar um Mestre nem alcançar a Deus-realização.”

O buscador ficou surpreso, e até os discípulos ficaram um pouco admirados com a observação do Mestre, porque a maioria sabia quão difícil fora para eles encontrar um Mestre espiritual, e que a Deus-realização era ainda uma meta distante.

O Mestre falou, “Veja, agora mesmo, alguns dos meus discípulos estão molhando a grama. Há pequenas plantas por aqui.” O Mestre apontou duas plantinhas bem miúdas. Então, o Mestre pegou uma pazinha e arrancou uma delas. Pegou a planta toda, raiz e folhas, e dirigiu-se para a outra planta. Aí, também, removeu a planta inteira e substituiu-a pela primeira. Daí, pegou a segunda planta e replantou-a no lugar da primeira.

Então, o Mestre falou, “Olhe aqui. Esta planta é o homem e aquela é Deus. Agora, eu sou o Mestre. Eu cheguei aqui e toquei esta planta. Foi uma questão de minutos, poucos minutos. Tão logo a toquei, imediatamente a planta me deu a divina resposta, e eu a peguei e a coloquei lá onde a planta chamada ‘Deus’ estivera. Então, peguei a planta-Deus, e obtive toda Sua Compaixão, Amor, Alegria e Deleite, e os coloquei aqui onde homem a planta estivera. Foi uma questão de apenas poucos minutos. Levei o homem a Deus e trouxe Deus ao homem.”

O novo buscador disse, “Mestre, quero ser seu discípulo. Por favor, inicie-me.”

“Eu o iniciarei em breve, meu filho”, disse o Mestre. E continuou, “Se sente que é quase impossível realizar Deus, significa que a sua idéia de Deus está errada, a sua idéia da espiritualidade está errada. Agora, está apegado ao mundo, mas se tiver o mesmo apego a Deus, verá que pode facilmente alcançá-Lo. Quando vou a Deus, bato em Sua porta. Imediatamente, Ele vem a mim, e eu digo, ‘Por favor, venha comigo’. Ele então vem com seu infinito Amor, Alegria, Bênçãos e Compaixão. Então, eu bato na sua porta, mas, quando bato, você não a abre; mantém a sua porta fechada, trancada. Naturalmente, Deus e eu vamos embora. Então, quando quero levá-lo ao palácio de Deus, digo, ‘Venha comigo’. Quando bato à porta de Deus de novo, Deus diz que, assim como você não abriu a sua porta quando eu O levei até você, Ele não lhe abrirá a porta Dele. Se tivesse aberto a porta quando eu trouxe Deus como o Convidado e se tivesse permitido a Deus entrar, naturalmente, Deus também teria permitido a você entrar no Seu Palácio. Portanto, se mantém a porta do seu coração aberta, Deus pode facilmente entrar.

Mas, quando eu me aproximo, você fica perturbado. Pensa que tem medo, dúvida, problemas emocionais, problemas vitais, inveja, e assim por diante. Não quer se expor; quer se esconder. Mas, a planta que eu mudei, homem a planta, não teve medo, dúvida e nem timidez quando a toquei – absolutamente nada. Não teve medo algum da sua própria ignorância. Sentiu uma comoção porque alguém a estava levando para outro lugar, o qual era Deus. Assim, quando eu o toco, quando um Mestre espiritual o abençoa ou medita em você, nesse momento, se oferece a sua ignorância e suas imperfeições, juntamente com suas qualidades devotadas, fica muito fácil para o Mestre levá-lo completamente para Deus. Se não, é quase impossível para o Mestre fazer qualquer coisa para transformar ou mesmo purificar as consciências dos discípulos. É uma troca de duas plantas. Isso é o que o Mestre faz quando lida com seus filhos espirituais. Uma planta é Deus, a outra planta é o homem.”

Então, o Mestre se afastou caminhando lentamente.



OS CONSELHOS DO MESTRE SOBRE A ESCOLHA DE UM CAMINHO


Havia um Mestre espiritual que queria dar a cada um de seus filhos espirituais atenção, cuidados, bênçãos e orientação especiais, a despeito do fato de ter centenas e centenas de discípulos. Ele conduzia muitas reuniões por semana, às vezes, duas no mesmo dia, de modo que cada reunião pudesse ser mantida pequena e íntima, independente de quantos novos buscadores ele admitisse em sua família espiritual. Em um ou dois dias na semana, o Mestre permitia a participação de visitantes nos encontros, e alguns posteriormente decidiam seguir o seu caminho. Um dia, quatro visitantes – três rapazes e uma moça – vieram ao Mestre, após um encontro. Um dos rapazes curvou-se perante o Mestre e disse, “Mestre, o senhor me aceitaria como seu discípulo? Eu tenho vindo aqui a cada semana durante o último mês, e finalmente decidi que este é o meu caminho.”

O Mestre perguntou ao buscador o seu nome e algumas informações sobre sua vida exterior, e, então, em silêncio, concentrou-se em sua alma. Finalmente, falou: “Certamente, eu o aceitarei como discípulo. Você tem a minha aceitação, de todo o coração. Por favor, venha aos nossos encontros regularmente e devotadamente. Eu vejo claramente que este é o seu caminho.”

O novo discípulo ficou extremamente feliz e agradecido por ter sido aceito pelo Mestre.

Então, o segundo rapaz disse, “Mestre, eu também tenho vindo durante o último mês, mas acabo de descobrir que pode-se vir apenas quatro ou cinco vezes antes de decidir tornar-se um discípulo. Sinto que este pode ser o meu caminho, mas não quero tornar-me um discípulo de imediato porque não gostaria de ter qualquer conflito interior ou ser parcial quanto ao meu compromisso. Quero estar absolutamente certo.”

O Mestre respondeu, “Admiro profundamente a sua sinceridade. Infelizmente, temos essa regra aqui no ashram, mas você é muito bem vindo aos encontros das quartas-feiras à noite fora do ashram. Muitas pessoas têm vindo a esses encontros há oito, nove meses, ou mesmo um ano, mas ainda não assumiram um compromisso e, de nossa parte, não lhes pedimos que assumam qualquer compromisso. Decerto, eu sou a mesma pessoa, o mesmo Mestre espiritual, no meu ashram ou fora dele, de modo que você poderá ter a mesma oportunidade de decidir se eu sou seu Mestre.”

“Mestre, fico feliz em ouvir que poderei freqüentar seus encontros nas quartas-feiras, e certamente continuarei vindo meditar com o senhor. Mas, porque o senhor tem esse regulamento rígido? Perdoe minha pergunta, mas porque a vida interior deveria ter essas limitações exteriores?”

O Mestre explicou, “Meu filho, se temos algumas regras e regulamentos como esse, podemos harmonizar mais efetivamente o grupo. Cada organização precisa de regras e regulamentos para funcionar bem. Também, é mais fácil disciplinar as vidas dos discípulos numa comunidade espiritual se há algumas regras.

“Há também uma razão espiritual, meu filho. Tenho visto claramente que, se alguém deseja selecionar um caminho, quatro visitas a um Mestre são mais que suficientes para a pessoa decidir se é o caminho certo para ela ou não. Após ver-me este número de vezes, se eu sou destinado a ser o seu Mestre, você deve sentir algo em mim. Não digo que, apenas por ser um Mestre espiritual você tem de sentir algo em mim; mas, se é meu destino ser o seu Mestre, definitivamente você sentirá algo em mim que o encorajará e o inspirará a tornar-se meu discípulo. Se diz, no entanto, que no seu caso, está demorando mais porque quer ser muito cauteloso e cuidadoso para evitar cometer um erro, então eu o convido a vir indefinidamente àquele outro encontro. Fique à vontade. Após uns seis meses, se sentir que este não é o caminho para você, poderá tentar outros caminhos.

“Sou seu irmão espiritual mais velho, digamos assim. Porque sou um pouco mais avançado que você no caminho espiritual, meu papel é levá-lo ao nosso Pai comum, mas eu mesmo não sou a Meta. Se há alguém espiritualmente um pouco mais avançada que você, então, naturalmente, ele também estará em posição de levá-lo ao Pai. Nós, Mestres espirituais, somos como mensageiros; apenas conduzimos os buscadores ao Pai. Você terá a mesma oportunidade de realizar Deus, se aceitar este caminho ou qualquer outro. Se quer aguardar, então por favor o faça, mas não se sinta triste ou perturbado. Nesse encontro e em todos os meus encontros – em todos os lugares – a porta do meu coração está toda aberta.”

O segundo buscador saudou o Mestre. “Mestre, estou verdadeiramente sensibilizado com a magnanimidade do seu coração e com a sua profunda sabedoria. Certamente continuarei vindo aos seus encontros. Muito obrigado.”

O terceiro rapaz aproximou-se do Mestre. “Mestre, sinto que minha vida está imersa em confusão. Como posso julgar minha própria sinceridade? Mestre, por favor, dê-me algum conselho.”

O Mestre falou, “Parece-me que você tem duas perguntas, não uma. Uma tem a ver com a sua confusão, outra com a sua sinceridade. Por que está confuso? O que o faz pensar que está tão confuso? Aceitação do nosso caminho é uma coisa, e confusão na sua vida, na sua mente, é um assunto completamente diferente. Pergunte-se se será feliz se não aceitar nosso caminho. Se sentir que será feliz, e se disser que não está confuso quanto a rejeitar ou aceitar nosso caminho, então a sua confusão está completamente separada de se você deve ou não aceitar a vida espiritual. Depende de você aceitar-nos ou rejeitar-nos. Este caminho é um meio de ver a verdade. A sua sinceridade lhe dirá se ele é para você.”

“Mas, Mestre,” o buscador interrompeu, “como posso julgar minha própria sinceridade?”

O Mestre respondeu, “Pode facilmente julgar a sua sinceridade. Ela depende inteiramente da grandeza ou magnanimidade do seu coração. Você não tem de se tornar uma pessoa espiritual para ser sincero. Pense em si mesmo como duas pessoas. Pense no seu vital, mente e físico como alguém afogando no mar da ignorância, e pensa no seu coração e alma como outra pessoa, atravessando o mar da ignorância a nado. Separe sua mente, vital e corpo de seu coração e alma. Sinta que, enquanto a sua mente, vital e corpo afundam, seu coração e alma têm a capacidade de salvá-los. O que deve fazer agora? Se separar-se da pessoa que afunda, se ficar com o coração e a alma, imediatamente a grandeza do coração e a visão de futuro da alma virão salvar o homem que se afoga dentro de você. Mas, você tem de decidir se quer ou não seguir o caminho do coração e da alma para salvar o físico, o vital e a mente. Se sentir que o físico está lhe dando a mensagem certa, que o vital está lhe trazendo a mensagem certa e que a mente está lhe oferecendo a mensagem certa, estão não sentirá uma necessidade verdadeira da vida espiritual. Mas, se sente que sua mente, por exemplo, está afundando, então deve se voltar para o coração, porque o coração está em posição de oferecer à mente iluminação. Quando entra para a vida espiritual, a sua mente intelectual será apenas um obstáculo inoportuno. A mente, como tal, não é ruim, mas a mente tem de ser iluminada pela luz do coração. E a luz do coração vem da própria alma.”

O terceiro buscador falou, “Mestre, seguirei seu conselho, e estou certo de que os problemas da minha confusão e da minha sinceridade logo serão resolvidos. Tentarei identificar-me com meu coração e minha alma.”

Então, o último visitante, a moça, disse ao Mestre: “Embora tenha meditado e tido uma vida interior durante muitos anos, esta é a primeira vez que tento encontrar um Mestre. Sinto grande afinidade pelo senhor, mas não é muito cedo para eu tomar uma decisão?”

O Mestre falou, “Minha filha, entre em seu coração e alma. Se sentir que este é o caminho para você, certamente deverá vir. Se sentir que este não é o seu caminho, então vá a algum outro lugar. Mas este é o meu único pedido a você e a todos que não aceitaram um Mestre espiritual: encontre seu Mestre, o mais breve possível. Apenas porque é sincera, peço-lhe que não se adie. Você pode até dizer que tem de esperar pela Hora de Deus, mas eu digo que a hora já chegou. Este é o motivo pelo qual veio até aqui e está pensando em ir a alguns outros lugares também. Algumas pessoas são muito irrequietas. Embora vejam um objeto de que gostam na primeira loja que vão, pensam que, talvez, encontrarão algo melhor em outra loja. Vão a vinte outras lojas, esperando achar um objeto em particular, e após olhar e procurar, freqüentemente acabam voltando à primeira loja.

“Porém, se são sábias, se estão realmente famintas e encontram a fruta que satisfará sua fome na primeira loja, comem lá mesmo e não se ocupam em ir de loja em loja. É certo que, se não gostarem da comida oferecida lá, têm todo o direito de ir a outro lugar. Mas, algumas pessoas exercitam o que chamam de sabedoria humana, a qual não tem validade do ponto de vista espiritual. Sua natureza é dizer ‘Vamos olhar outras coisas’. O problema é que o tempo é muito precioso. Se tenho de entrar em muitas lojas e examinar tudo, enquanto estou perdendo tempo, alguém pode comprar a fruta que eu queria a princípio. Além disso, o vendedor não mantém suas portas abertas vinte e quatro horas por dia. Se perambulo por sua loja durante muito tempo sem comprar o que preciso, ele pode decidir que é hora de fechá-la e pedir-me que vá procurar em outro lugar. Nessa hora, sou eu quem fica insatisfeito e incompleto.

“Então, após buscar em seu interior profundo, se seu coração e sua alma disserem que este não é o seu caminho, seja muito corajosa e procure outro Mestre. Mas, se sentir que este é o seu caminho, não permita que a mente se manifeste trazendo dúvida.

“Você pode pensar que a mente está sendo sinceramente cautelosa ao questionar o coração, mas, na verdade, a mente está apenas mostrando sua insegurança. A mente é perdidamente insegura, e por isso cria sempre confusão. Tenha fé somente no seu coração e na sua alma. Se a alma lhe envia a mensagem através do seu coração de que este é o seu caminho, aceite este caminho e mantenha-se nele.

“O que estou dizendo é que é melhor estar sempre alerta e não perder tempo. Temos de estudar três assuntos. O primeiro é Deus-realização, o segundo é Deus-revelação e o terceiro é Deus-manifestação. Mal começamos a estudar o primeiro, mas devemos completar todas as três disciplinas. Cada uma necessita de um grande investimento de tempo. Deus sabe quantos séculos, quantas encarnações cada uma exigirá. Então, quanto antes começarmos, melhor para nós.”

A buscadora se curvou ao Mestre e falou: “Mestre, não perderei um segundo. Buscarei fundo em meu interior e encontrarei o caminho para mim. Mestre, o senhor é nosso verdadeiro irmão espiritual, cuja única preocupação é o nosso progresso. Estamos profundamente sensibilizados com sua orientação incondicional. Faremos o que o senhor disse.” Os quatro buscadores curvaram-se agradecidos ao Mestre antes de saírem.



EU QUERO APENAS UM ALUNO: O CORAÇÃO


Havia um Mestre espiritual que tinha centenas de seguidores e discípulos. O Mestre sempre oferecia discursos em diferentes lugares – igrejas, sinagogas, templos, escolas e universidades. Sempre que era convidado, e sempre que seus discípulos encontravam oportunidades, ele proferia palestras. Ele deu palestras para crianças e adultos. Deu palestras para estudantes universitários e para donas de casa. Algumas vezes, proferiu palestras perante estudiosos e os mais avançados buscadores. E assim foi por cerca de vinte anos.

Finalmente, chegou o dia em que o Mestre decidiu descontinuar suas palestras. Ele disse aos discípulos: “Basta! Fiz isso durante muitos anos. Agora, não darei mais palestras. Apenas silêncio. Manterei silêncio.”

Durante cerca de dez anos, o Mestre não deu mais palestras. Manteve silêncio em seu ashram e em todo lugar. Ele havia respondido milhares de perguntas, mas agora, nem sequer meditava em público. Passados dez anos, seus discípulos lhe rogaram que retomasse seu antigo costume de dar palestras, responder perguntas e conduzir meditações públicas. Todos pediram, e ele por fim consentiu.

Imediatamente, seus discípulos organizaram eventos em muitos lugares. Colocaram anúncios em jornais e cartazes por toda parte, anunciando que seu Mestre iria proferir palestras novamente e conduzir elevadas meditações para o público. O Mestre ia a esses lugares com alguns de seus discípulos favoritos, que eram os mais devotados e dedicados. Centenas de pessoas se juntavam para ouvir o Mestre e ter suas perguntas respondidas. Mas, para a grande surpresa de todos, o Mestre não dizia coisa alguma. Do início ao fim dos encontros, por duas horas, ele mantinha silêncio.

Alguns dos buscadores na audiência ficavam incomodados. Diziam que estava escrito no jornal e nos cartazes que o Mestre daria uma curta palestra e responderia perguntas, bem como conduziria uma meditação. “Como, então, ele não disse coisa alguma?”, perguntavam. “É um mentiroso”, diziam muitos, que ficavam aborrecidos e iam embora. Outros permaneciam durante as duas horas, na esperança de que, talvez, o Mestre falasse ao final, mas ele encerrava as meditações sem dizer uma palavra. Algumas pessoas da audiência sentiam alegria interior. E algumas ficavam por medo de que, saindo cedo, as outras poderiam pensar que eles não eram espirituais e que não conseguiam meditar. Assim, alguns saíam, alguns ficavam com grande relutância, alguns ficavam a fim de se mostrarem para os outros, e muito poucos ficavam com grande sinceridade, devoção e clamor interior.

E assim se procedeu por três ou quatro anos. Muitos criticavam impiedosamente o Mestre e deixavam os discípulos envergonhados, dizendo: “Seu Mestre é um mentiroso. Como vocês justificam colocar anúncios no jornal dizendo que seu Mestre vai dar uma palestra, responder perguntas e conduzir meditação? Ele só faz a meditação e nós não aprendemos coisa alguma com ela. Quem consegue meditar por duas ou três horas? Ele está fazendo a gente de bobo, e se passando por tolo.” Alguns discípulos próximos ficaram muito perturbados. Sentiam-se tristes porque seu Mestre era insultado e criticado. Rogavam ao Mestre para que desse apenas uma curta palestra e respondesse umas poucas perguntas ao final da meditação. Por fim, o Mestre aquiesceu.

Na ocasião seguinte, o Mestre não exatamente se esqueceu de que havia concordado, mas mudou de idéia. Em vez de duas, ficou meditando durante quatro horas. Até seus discípulos mais próximos ficaram tristes, já que não podiam zangar-se com o Mestre, pois é um séria falta kármica zangar-se com o próprio Mestre. Todavia, ficaram com medo de que alguém na audiência se levantasse e insultasse o Mestre. Em suas mentes, prepararam-se para proteger o Mestre caso ocorresse alguma calamidade.

Quando quatro horas haviam se passado sem sinal de que o Mestre falaria ou encerraria o encontro, um dos seus discípulos mais próximos levantou-se e disse, “Mestre, por favor, não se esqueça da sua promessa.”

O Mestre respondeu imediatamente: “Minha promessa, sim. Eu lhes prometi, e então é meu dever oferecer uma palestra. Hoje, minha palestra será muito curta. Quero dizer que dei centenas de palestras, milhares de palestras. Mas, quem ouviu minhas palestras? Milhares de olhos e milhares de ouvidos. Meus alunos eram os olhos e ouvidos das platéias – milhares e milhares de olhos e ouvidos. Mas falhei em ensinar-lhes qualquer coisa. Agora, quero ter um tipo diferente de aluno. Meus novos alunos serão os corações.

“Ofereci mensagens em milhares de lugares. Essas mensagens entraram por um ouvido e saíram pelo outro, todas no mais curto espaço de tempo. E o povo me viu dar palestras e responder perguntas. Apenas por um breve segundo, seus olhos percebiam algo em mim e, então, tudo se perdia. Enquanto eu falava sobre Verdade, Luz, Paz e Beatitude sublimes, os ouvidos não podiam captá-las porque já estavam cheios de rumores, dúvida, inveja, insegurança e impureza, coisas acumuladas durante muitos anos. Os ouvidos estavam totalmente poluídos e não receberam minha mensagem. E os olhos não receberam minha Verdade, Paz, Luz e Beatitude, porque viam tudo ao modo deles. Quando os olhos humanos vêem algo belo, imediatamente começam a comparar. Dizem, ‘Como ele pode ser lindo, seu discurso ser lindo, suas perguntas e respostas serem lindas? Por que eu não posso ser assim?’ E, de pronto, chega a inveja. O olho humano e o ouvido humano ambos respondem através da inveja. Se o ouvido escuta algo bom sobre alguém, imediatamente a inveja chega. Se o olho vê alguém belo, imediatamente a pessoa sente inveja.

“Os ouvidos e olhos cumpriram seus papéis. Provaram ser alunos não-divinos, e não pude ensinar-lhes. Seu progresso foi totalmente insatisfatório. Agora, quero novos alunos e tenho novos alunos. Esses alunos são os corações, onde a unicidade crescerá – unicidade com a Verdade, unicidade com a Luz, unicidade com a beleza interior, unicidade com o que Deus tem e com o que Deus é. É o aluno-coração que tem a capacidade de se identificar com a Sabedoria, Luz e Beatitude do Mestre. E, quando ele se identifica com o Mestre, descobre a sua própria realidade: Verdade, Paz, Luz e Beatitude infinitas. O coração é o verdadeiro ouvinte, o verdadeiro observador; ele é o verdadeiro aluno que se torna um com o Mestre, com a visão, com a realização e com a Luz eterna do Mestre. De agora em diante, o coração será meu único aluno.”



EXPECTATIVA HUMANA E SATISFAÇÃO DIVINA


Um dia, um discípulo muito próximo de um grande Mestre espiritual o procurou e disse: “Mestre, o senhor me tem dito para não esperar nada da minha vida, mas esperar tudo apenas de Deus. Eu tenho fé em Deus, mas a menos e até que eu O tenha visto face a face, como posso esperar algo Dele? Se vejo uma pessoa, posso esperar algo dela, mas, se não a vejo, o que poderei esperar dela? Eu vejo minhas mãos e espero algo das minhas mãos. Vejo meus membros e, só porque os vejo, sinto que posso pedir-lhes um favor. Mas, no caso de Deus, como não O vejo, como posso esperar algo Dele?”

O Mestre disse, “Meu filho, é verdade que não viu Deus, mas quero dizer-lhe que há muitas coisas que consegue, as quais não vêm de uma ação das suas mãos, nem dos seus olhos, nem de qualquer parte do seu corpo. Há muitas coisas que não espera, nem de você, nem de alguém mais, mas tais coisas ocorrem, mesmo que não perceba qualquer causa exterior ou qualquer providência feita por uma pessoa conhecida sua. Elas acontecem ao Modo de Deus, o qual está muito além da sua imaginação.”

“Mestre, isso é verdade. Mas devo dizer que, muito freqüentemente, quando espero algo de Deus, minhas expectativas não são satisfeitas.”

O Mestre perguntou, “Quando esperas algo de si, as suas expectativas encontram satisfação sempre?”

“Não, Mestre.”

“Se não pode satisfazer tudo que espera de si, porque espera que Deus satisfaça tudo o que espera Dele?” Alguém espera algo porque estabeleceu um objetivo para si, e, ou espera que o objetivo venha alcançá-lo, ou procura ir ao seu alcance. Porque tem algum destino em mente, ou puxa o destino para si ou se conduz para ao destino. Mas os esforços próprios nem sempre são suficientes para dar-lhe sucesso, não. Há uma força maior, que se chama Graça, a Compaixão de Deus. Quando essa Compaixão desce das Alturas, nada há que não possa esperar da sua vida. Quando a Compaixão divina desce, se tiver uma expectativa divina, é certo que será satisfeita.

“Também há a possibilidade de que, no início da jornada, um buscador possa almejar uma meta menor porque não está consciente da sua maior capacidade, ou porque não está liberto de seus desejos. Se o indivíduo não tem verdadeira, sincera aspiração, se não é um buscador genuíno, Deus lhe dá o que ele conscientemente quer e espera. Mas, se ele ora e medita com toda alma, quando Deus ver a sua sinceridade e potencialidade, Deus não irá querer que ele alcance a meta inferior. Deus guarda uma meta infinitamente mais elevada pronta para ele.

“No início, sua expectativa pode ser uma gota de Luz, mas Deus está preparando você para poder receber uma vastidão infinita de Luz. No início, pode tentar obter apenas uma gota de Néctar; pode sentir que isto é suficiente. Mas Deus quer alimentá-lo com uma grande quantidade de Néctar. Assim, quando é absolutamente sincero na sua vida espiritual, se tem uma meta menor, Deus pode negar esse seu objetivo inferior, pois Ele guarda para você a Meta mais elevada. Mas, como não enxerga a Meta altíssima, sente que Deus não é bom nem Se importa com você.”

“O que é uma meta menor ou inferior?”, perguntou o discípulo.

“Deixe-me dar um exemplo”, replicou o Mestre. “Eu queria ser um cobrador de trem. Quando eu era criança e o cobrador passava pedindo os bilhetes, eu ficava tão fascinado pelos seus movimentos e com os seus gestos que eu queria ser igual a ele. Agora, veja! Eu me tornei um Mestre espiritual. Ser um Mestre espiritual é uma conquista infinitamente maior que ser um cobrador de trem. Assim, Deus não me permitiu atingir aquele objetivo menor.

“Eu também quis tornar-me um grande atleta, um corredor muito veloz, mas Deus quis algo mais. Ele quis que eu me tornasse um corredor muito rápido, não na vida exterior, mas na vida interior. O nome, a fama e as conquistas de um atleta campeão na vida exterior duram somente alguns anos. É verdade que ele inspira os jovens; mas a inspiração que oferece é nada se comparada com a inspiração que o campeão interior, o Mestre espiritual, oferece. Quando um Mestre inspira alguém, a consciência dessa pessoa é elevada, e ela dá um passo a frente em direção à Meta altíssima. O Objetivo derradeiro pode por fim ser alcançado com a ajuda da inspiração e aspiração de um Mestre.”

O discípulo disse, “Mas Mestre, mesmo quando eu espero de Deus a mais elevada Meta – Paz, Luz e Beatitude em quantidades infinitas – mesmo assim, minhas expectativas não são atendidas.”

“Meu filho, quando você espera Paz, Luz e Beatitude de Deus, significa que estabeleceu para si uma meta bastante elevada. Quando espera algo de seus amigos, parentes, vizinhos ou conhecidos, se eles não quiserem oferecer a você, então, simplesmente não o farão. E quando não obtém tal coisa, fica infeliz porque sente que, apesar de merecê-lo, não o conseguistes; ou sente, que os outros não querem dar aquilo a você por causa de inveja e medo de que, se o conseguir, eles não serão capazes de mostrar sua supremacia.

“Mas, no caso de Deus, se Ele não lhe dá algo, não é porque Ele é invejoso ou porque Ele pensa que se der a você a Sua Infinidade não será capaz de manter Sua Supremacia. Não. Você pode sentir que o que tem recebido é apenas uma gota, enquanto o que espera é um oceano infinito; mas, quando Deus lhe dá somente uma gota, é porque Ele sente que mesmo essa pequena gota pode ser muito. Mas, gradualmente, Deus aumenta a sua capacidade, e chegará o dia que você será capaz de receber uma grande gota. E, por fim, será capaz de receber o oceano todo.

“Se espera algo de Deus, mas não o obtém, tenha certeza de que Deus tem razões muito boas e legítimas para não dar aquilo a você. É porque Ele lhe dará algo muito melhor no futuro. Também, Ele dirá a razão pela qual o está negando tal coisa. Se Ele não satisfaz sua expectativa, Ele oferece Luz a você. Através da Luz, Ele torna claro porque não está dando a você o que espera. E, se Ele dá de imediato o que quer, então Ele também diz o motivo de estar conseguindo aquilo agora. Assim, minha criança, se verdadeiramente quer esperar algo, espere não de si, nem de qualquer pessoa, mas somente de Deus.

“O atendimento de expectativas é simultaneamente uma necessidade humana e uma satisfação divina. Quando dizemos que estamos satisfeitos, referimo-nos ao atendimento da nossa expectativa. Mas essa satisfação de expectativa ocorre num modo divino apenas quando entregamos nossa vontade à Vontade de Deus.

“Senão, estaremos orando a Deus, meditando em Deus, adorando a Deus e tentando agradar a Deus com uma forma inadequada de expectativa. Porque rezamos durante oito horas, esperamos que Deus nos dê um sorriso. Mas como saber se, obtendo um sorriso de Deus, nossa vida será imortalizada, ou se, conseguindo outras coisas que queríamos, nossa vida será verdadeiramente satisfeita?

“Se esperarmos de Deus de um modo divino, a Realidade crescerá em nós; e com essa Realidade seremos capazes de seguirmos em direção à nossa Imortalidade, nossa Meta transcendental altíssima.”



DEVE-SE SEGUIR A PRÓPRIA NATUREZA


(Um homem santo nada no rio, e um observador está sentado na margem, assistindo. O homem santo vê um escorpião bem diante de si. Com pena da pobre criatura, ele o pega e, bem devagar, com toda gentileza, o põe em terra. Enquanto faz isto, o escorpião o ferroa severamente. O homem começa a chorar de dor.)

HOMEM SANTO: Eu queria salvá-la e salvei-a. É essa a minha recompensa? De qualquer modo, cumpri meu dever.

(Alguns minutos depois, o escorpião cai de novo no rio. O observador continua assistindo.)

HOMEM SANTO: Ah, pobre criatura, você sofre novamente. Sinto pena de você.

(Ele pega o escorpião outra vez e o coloca em terra. Uma vez mais, o escorpião o ferroa, desta vez com mais força ainda, e o homem santo grita com tremenda dor.)

OBSERVADOR: Você é um tolo! Por que fez isso? Da primeira vez, errou, e da segunda, repetiu o mesmo erro.

HOMEM SANTO: Meu amigo, o que posso fazer? Minha natureza é amar, minha natureza é salvar. A natureza do escorpião é odiar, a natureza do escorpião é ferroar. Eu tenho de seguir minha própria natureza e o escorpião tem de seguir sua própria natureza. Se ele cair na água outra vez, eu o tirarei, não importando quantas vezes ele venha a cair. Serei picado, chorarei, lamentarei; mas não negarei minha natureza, que é amar, salvar e proteger os outros.

(O observador, imediatamente, pula no rio e toca os pés do homem santo.)

OBSERVADOR: O senhor é meu professor, meu Guru. Eu tenho procurado, ansiado por um Guru. Hoje, encontro no senhor meu verdadeiro Guru. E como sou seu discípulo, de agora em diante, se o escorpião cair no rio, serei eu quem vai colocá-lo de volta em terra.

(O discípulo canta.)

Amar bhabana
Amar kamana
Amar eshana
Amar sadhana
Tomar charane
Peyechhe ajike thai
Moher bandhan hiyar jatan
Timir jiban shaman shasan
Halo abasan nai nai ar nai

[Meus pensamentos, meus desejos, minha aspiração, as disciplinas da minha vida
Hoje encontraram morada a Seus Pés.
As amarras do apego tentador e as dores do coração,
A vida de escuridão e a tortura da morte,
Não mais vejo, não mais sinto.]

(Ele ajuda o homem santo a sair do rio. O Guru, agora sentado na margem, observa a cena. Em poucos minutos, o escorpião cai no rio. O discípulo o pega e o põe em terra firme, mas o escorpião não o fere.)

DISCÍPULO: Como pode, Mestre? Eu não fui ferido. Pensei que eu também seria ferroado pelo escorpião. O senhor foi ferido impiedosamente duas vezes. Eu não entendo.

MESTRE: Minha criança, você não compreende? Devo lhe dizer? Você acreditará em mim?

DISCÍPULO: Por favor, por favor, diga-me. Eu acreditarei no senhor, Mestre.

MESTRE: O escorpião também tem uma alma, e ela lhe disse que, se ele o picasse, ao invés de colocá-lo em terra, você o mataria imediatamente. O escorpião sabia que você não aceitaria aquilo, que não toleraria a ingratidão dele. De você, o escorpião não obteve qualquer garantia de sua segurança. O escorpião não o picou porque sentiu isso. No meu caso, a alma do escorpião sabia que eu jamais o mataria, independente de quantas vezes ele me picasse; eu apenas o pegaria e o colocaria em terra, para a segurança dele. No dia-a-dia, as pessoas também brigam, discutem e ameaçam outras apenas quando percebem que seus oponentes são fracos ou não querem brigar. Mas, caso vejam que alguém é mais forte do que elas, então ficam caladas.

DISCÍPULO: Mestre, o senhor tem discípulos?

MESTRE: Tenho muitos, muitos discípulos.

DISCÍPULO: O que o senhor faz com eles?

MESTRE: Eu dou e recebo, recebo e dou. Recebo seu veneno todos os dias, e dou-lhes néctar. Recebo sua aspiração e dou-lhes realização. Recebo deles o que eles têm, ignorância, e dou-lhes o que eu tenho, sabedoria. Eles me dão a garantia da minha manifestação e eu lhes dou a garantia da sua realização. Nós necessitamos um do outro. Você precisa de mim para poder esvaziar-se – esvaziar sua impureza, imperfeição, obscuridade e ignorância, – em mim. E eu preciso de você para poder enchê-lo com o meu todo, com tudo que há em meu interior. Assim é como completamos um ao outro. A sua natureza é dar-me o que você tem: impureza, obscuridade, imperfeição, limitação, apego e morte. Minha natureza é dar a você o que eu tenho: pureza, amor, alegria, luz, beatitude e perfeição. Quando sua natureza entra na minha natureza e minha natureza entra na sua natureza, ambos somos totalmente manifestos e totalmente completos. Assim é como o buscador e o professor satisfazem ao Piloto Eterno, o Supremo.